sexta-feira, 20 de maio de 2005

Alvo

Eras um alvo tão fácil, tão óbvio. Julgo que te não matei por melancolia.

quarta-feira, 18 de maio de 2005

Ode

O egocentrismo não tem de implicar necessariamente o narcisismo. Porque eu posso odiar-me e pretender-me o centro de todos os ódios. O que o egocentrismo obriga é a uma presunção, manifestação e imposição orgulhosa do ego. E não há contradição nisto. O orgulho que se exibe é relativo ao sem número de virtudes e defeitos que nos tornam únicos. Como o orgulho centra-se na individualidade, perpetuam-se e gritam-se desalmadamente as virtudes e os defeitos, para que não sobre ninguém que a não reconheça.

sábado, 14 de maio de 2005

Determinantes

Porquê tomar decisões em função de um futuro que ninguém conhece?

sexta-feira, 13 de maio de 2005

Arte

Se o homem está condenado a dar resposta aos seus enigmas, pela sua incapacidade de se sustentar no nada, como pode a arte ser tomada como absoluta? Pois o que define a arte é o seu mistério, é a sua capacidade de nos provocar vertigens.

terça-feira, 10 de maio de 2005

Solitude

Estamos irremediavelmente sós no mundo. Talvez só quando aceitarmos essa nossa condição deixaremos de pretender e presumir dos outros o que quer que seja.

quinta-feira, 5 de maio de 2005

Aspirância

Quando me lembro de que sinto a tua falta, observo pela janela quem passa, e entretenho-me a acreditar que és tu.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Relativo

O relativismo tem conhecido uma crescente aceitação, porque permite uma atitude cómoda perante a vida, com a qual se não estabelecem compromissos. Sob uma máscara de tolerância perante todo e qualquer acto, a relativização é a expressão maior de um egoísmo, porque, no limite, pretende justificar as próprias escolhas.

terça-feira, 3 de maio de 2005

Epicuro

Nada existe na natureza que não seja quotidiano. Pois caso contrário, quem seria o seu autor?

segunda-feira, 2 de maio de 2005

Dinâmica

Que compromisso estabelece o escritor com aquilo que escreve? Porque aquilo que está escrito não é já aquilo que foi escrito. Pode ambicionar-se a objectividade nas palavras, mas não que essa objectividade seja estática. Mas se a escrita não é um meio através do qual se pode obter a imortalidade, para quê escrever? (Talvez para ser agente dessa dinâmica)

sábado, 30 de abril de 2005

Evocação

É claro que estás vivo. A qualquer momento posso cruzar-me contigo numa qualquer rua, num qualquer bar. E por vezes cruzo-me, ainda que te não fale. Mas, afinal, nunca empreendemos grande diálogo entre nós, e eu só sei o teu primeiro nome. Estás vivo porque me lembro de ti, e nada há de metafísico nisto.

terça-feira, 26 de abril de 2005

Inferno

A intenção é a mediação entre a vontade e a acção. Que devemos então julgar? O acto que se não funda na vontade? A vontade que não chega a ter expressão? O esforço de conciliar a vontade e a acção? De que está o inferno cheio?

quarta-feira, 20 de abril de 2005

Ética

Um acto virtuoso só está terminado quando dele não tivermos consciência.

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Absoluto

Existe em nós uma necessidade absoluta de absoluto: deus, o outro ou eu.

Porque quando estás na minha presença, as minhas opiniões, as minhas acções, as minhas vontades não são significantes. Tu és o absoluto.

Porque é na tua ausência, na presença de mim a mim próprio, que sei e que ajo e que vivo. Eu sou o absoluto.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Puro

Cuidado, não te tornes tu também numa ideia, de tantas ideias que tens.

quarta-feira, 13 de abril de 2005

Conceito

Um conceito é um preconceito do qual temos conhecimento da justificação.

segunda-feira, 11 de abril de 2005

Comunidade

A sanidade mental é a loucura partilhada. Porque a verdade é apenas a ordem comum, mas esta é tão arbitrária como qualquer outra.

domingo, 10 de abril de 2005

Deuses

O homem descobriu-se enquanto deus porque reconheceu que o seu acto, o produto da sua vontade, é absoluto, livre, espontâneo. Mas o homem é demasiado fraco para suportar a sua própria divindade, e assim foi inventando outros deuses a quem se submeter, e a quem atribuir a responsabilidade dos seus actos.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

Passividade

Actuar é tornar actual. Se existes, és tu próprio também um acto. A autodeterminação é condição inerente de tudo quanto possas ter ideia. A passividade não existe.

terça-feira, 5 de abril de 2005

Obsessão

Que queres que faça? Que seja indiferente perante ti? Que não goste de ti? Existem possibilidades que não fazem parte do meu leque de opções.

segunda-feira, 4 de abril de 2005

Literatura

De que nos serve a literatura se tudo o que vale a pena é incomunicável? Porque aquilo que digo não é aquilo que intento, nem aquilo que interpretas, mas a própria coisa dita, que é irredutível.