quinta-feira, 7 de julho de 2005

Convergência

A acção é tudo aquilo que encontra expressão de facto. Por detrás de um aparente pragmatismo diferenciado de uma verdade oculta, sublinha-se que toda a verdade, apercebida ou não, age sobre todas as coisas. Mais, só aquilo que age pode ter existência, pois caso contrário, todas as potências existiriam já e seriam agentes. A realidade seria assim, simultaneamente, tudo aquilo que é e que pode ser. Seria um eterno convergente de todas as possibilidades e, como tal, indisponível para qualquer dinâmica.

quinta-feira, 30 de junho de 2005

Luto

É perante a liberdade que nos surge a sensação de desorientação. Que fazer depois de todos os obstáculos estarem derrubados? Necessitamos, pois, de novas prisões, para delas nos libertarmos. É isso o que nos mantém ocupados, o que nos dá a ilusão de vivermos.

(É talvez por isso que a morte de Emídio Guerreiro nos não sensibiliza tanto quanto a morte de Álvaro Cunhal. Enquanto este empenhou a sua liberdade para se legitimar, o primeiro quis conquistar a liberdade porque acreditava na legitimidade do homem)

sábado, 25 de junho de 2005

Afirmo

Estamos sempre a tentar localizar o agora, para o afirmarmos. Porque quando afirmo, torno isso que afirmo durável. Esta dinâmica que em tudo observamos, e à qual sabemos não escapar, provoca-nos a vertigem do nada em que constantemente nos tornamos. Afirmo, para que alguma coisa sobreviva ao nada.

domingo, 19 de junho de 2005

Coerência

Entre a adjectivação pretensamente elogiosa, destaca-se a coerência. Mas esta tem-se confundido com o estatismo, com o conservadorismo ideológico, alheio à dinâmica e às consequentes contradições do homem. A coerência é a adequação das ideias ao mundo.

terça-feira, 7 de junho de 2005

Tolerância

É estranho o conceito de limite à violação do aceitável. Implica uma condescendência da sociedade perante o inaceitável do individuo, e um esforço de contenção do individuo perante o inaceitável da sociedade.

domingo, 5 de junho de 2005

Parmenedianismo

Se o mundo tivesse sido feito à imagem de Deus, viveríamos sobre o mais completo tédio. Porque aquilo que é perfeito nunca poderá comportar a mudança.

quarta-feira, 1 de junho de 2005

Mudança

As coisas já não são o que eram. Mas foi por agora o ter dito que as coisas deixaram de ser o que eram. Porque só muda aquilo que sentimos, quando o sentimos. E aí, o que mudou fomos nós.

segunda-feira, 30 de maio de 2005

Revolto

A razão última do meu ódio é que te amo. E amo-te tão desmesuradamente que te não aceito, que te não tolero. Porque os teus gestos, as tuas palavras, as tuas acções contêm todo o significado. Mas eu não encontro sentido nesse significado. Provocas-me a falência do mundo.

sexta-feira, 27 de maio de 2005

Epopeia

Ah, a fé que me sonha maior do que sou! E saber que os sonhos se não sonham ou se vivem, senão trivialmente, sem sabermos que os vivemos.

sexta-feira, 20 de maio de 2005

Alvo

Eras um alvo tão fácil, tão óbvio. Julgo que te não matei por melancolia.

quarta-feira, 18 de maio de 2005

Ode

O egocentrismo não tem de implicar necessariamente o narcisismo. Porque eu posso odiar-me e pretender-me o centro de todos os ódios. O que o egocentrismo obriga é a uma presunção, manifestação e imposição orgulhosa do ego. E não há contradição nisto. O orgulho que se exibe é relativo ao sem número de virtudes e defeitos que nos tornam únicos. Como o orgulho centra-se na individualidade, perpetuam-se e gritam-se desalmadamente as virtudes e os defeitos, para que não sobre ninguém que a não reconheça.

sábado, 14 de maio de 2005

Determinantes

Porquê tomar decisões em função de um futuro que ninguém conhece?

sexta-feira, 13 de maio de 2005

Arte

Se o homem está condenado a dar resposta aos seus enigmas, pela sua incapacidade de se sustentar no nada, como pode a arte ser tomada como absoluta? Pois o que define a arte é o seu mistério, é a sua capacidade de nos provocar vertigens.

terça-feira, 10 de maio de 2005

Solitude

Estamos irremediavelmente sós no mundo. Talvez só quando aceitarmos essa nossa condição deixaremos de pretender e presumir dos outros o que quer que seja.

quinta-feira, 5 de maio de 2005

Aspirância

Quando me lembro de que sinto a tua falta, observo pela janela quem passa, e entretenho-me a acreditar que és tu.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Relativo

O relativismo tem conhecido uma crescente aceitação, porque permite uma atitude cómoda perante a vida, com a qual se não estabelecem compromissos. Sob uma máscara de tolerância perante todo e qualquer acto, a relativização é a expressão maior de um egoísmo, porque, no limite, pretende justificar as próprias escolhas.

terça-feira, 3 de maio de 2005

Epicuro

Nada existe na natureza que não seja quotidiano. Pois caso contrário, quem seria o seu autor?

segunda-feira, 2 de maio de 2005

Dinâmica

Que compromisso estabelece o escritor com aquilo que escreve? Porque aquilo que está escrito não é já aquilo que foi escrito. Pode ambicionar-se a objectividade nas palavras, mas não que essa objectividade seja estática. Mas se a escrita não é um meio através do qual se pode obter a imortalidade, para quê escrever? (Talvez para ser agente dessa dinâmica)

sábado, 30 de abril de 2005

Evocação

É claro que estás vivo. A qualquer momento posso cruzar-me contigo numa qualquer rua, num qualquer bar. E por vezes cruzo-me, ainda que te não fale. Mas, afinal, nunca empreendemos grande diálogo entre nós, e eu só sei o teu primeiro nome. Estás vivo porque me lembro de ti, e nada há de metafísico nisto.

terça-feira, 26 de abril de 2005

Inferno

A intenção é a mediação entre a vontade e a acção. Que devemos então julgar? O acto que se não funda na vontade? A vontade que não chega a ter expressão? O esforço de conciliar a vontade e a acção? De que está o inferno cheio?