Uma definição é a morte do que se define.

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Ódio

Primeiro há o ódio. Só depois vem o motivo. E é esse o segredo do nosso activismo. Nós agimos, não porque queiramos alguma coisa. Mas porque não queremos alguma coisa. E é quando não sabemos o quê, que se instala uma inquietação indefinida, que nos pode levar aos actos mais radicais. No limite, leva-nos ao ódio por tudo.

Declaração

Desculpa-me. Não sou eu quem decide. É qualquer outra coisa por mim ou em mim, que não sei. E é só aqui que começa a minha liberdade: aceitar, ou negar. Eu escolhi aceitar. E por isso digo-te:

-Amo-te.

Génio

Ultimamente, prefere-se ser génio a ter génio. Mas um génio sem génio, não tem genialidade nenhuma.

Afectos

A História do homem, e aquela que merece ser contada, é a história dos seus afectos.

Limbo

O limbo é a impossibilidade de voltar atrás e a incapacidade de seguir em frente. E é por isso tão adequado àqueles que perderam a inocência, mas não a consciência.

Muletas

A paranóia com a segurança não é um fenómeno recente. É, aliás, condição necessária da nossa existência e, como tal, acompanha-nos desde o início. Não me refiro apenas à salvaguarda da integridade física, que é um factor biológico, animal, mas sobretudo à da integridade moral. Porque é nesta que mais se destaca aquilo que definimos como a nossa personalidade. Um conjunto de comportamentos que assumimos como sendo a melhor via para nos assegurarmos a nós próprios. Mas não nos iludamos em pensar que a integridade que julgamos ter é fruto de algo puramente interno, incorruptível, como os átomos de Demócrito ou as mónadas de Leibniz. Pelo contrário, cada atitude que tomamos é um objecto estranho, exterior a nós próprios. Uma muleta. O sucesso, o amor, o poder, o saber, a solidão. E até todos os contrários destes: a ignorância, a subserviência, o ódio, a dor. E tudo quanto possamos pensar. Andamos todos à procura do mesmo, ainda que de formas totalmente contrárias e até contraditórias.

Aparição

Por vezes, escrever, como falar, é apenas uma forma de marcar presença.


Imagem ao topo: Detalhe de Sansão e Dalila, de Rubens
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